terça-feira, 17 de junho de 2014

Aécim desesperado: Alceu Valença desmente apoio ao tucano

Foto: Facebook de Alceu Valença

O cantor pernambucano Alceu Valença desmentiu o boato de que estaria apoiando Aécio Neves. Através de uma postagem em seu perfil no Facebook, Valença disse em alto e bom som que falará de política na hora que ele quiser.

 “Digo, aqui, que não estou apoiando a candidatura do mineiro. Falarei sobre política na hora que eu quiser”, escreveu o cantor.

A resposta  foi direcionada à campanha de Aécio que editou e publicou uma foto antiga de Alceu como se ele estivesse em um jantar na casa de Luciano Huck, que reuniu alguns artistas para tratar da campanha de Aécio.

“Estão dizendo que a foto postada foi tirada na última semana na casa de Luciano Huck. Bom, não conheço o apresentador pessoalmente e nem sei onde mora. Há 3 anos uso barba. Quem postou a foto, coloque suas barbas no molho”.

Alceu Valença ainda diz que não sabe quem e como postaram uma foto vinculando o ao tucano e que não pertence a nenhum partido político e que exerce a sua cidadania de forma democrática. “Sou livre e não devo satisfação a candidatos, partidos ou cidadãos”.

A reunião citada por Alceu aconteceu há alguns dias e foi organizada pelo apresentador Luciano Huck para reunir alguns artistas para apoiar a candidatura tucana à presidência da república. O encontro dos atores foi alvo de discussão publica por Thiago Lacerda e Paulo Betti, que ironizou o encontro dos globais.

“Reunião de apoio a Aécio na casa de Luciano Huck e Angélica. Presentes Marcelo Adnet, Kaká, Andrucha Waddington, Fernanda Torres. Sem comentários… (risos)”, publicou Paulo no seu perfil do Facebook.

Lacerda respondeu que se sentiu bastante ofendido e atacou Betti dizendo que o autor que interpretou Lamarca no cinema não tem “nenhuma vergonha de mascarar o óbvio, cujo principal objetivo é propagandear a mesmice canalha que assalta o país”, postou.

De maneira leve e politizada, Paulo replicou e explicou para Thiago Lacerda que a divergência faz parte da democracia

“Thiagão querido, o colega de profissão sou eu! Eu que escrevi esse comentário e coloquei (risos). Democracia é cada um expressar o que pensa e se expor publicamente apoiando e discutindo política, civilizadamente, sendo responsável! Não sei por que minha ironia chocou você… Achei engraçado reunião política na casa de Luciano Huck. Bem-vindo à disputa política! Sempre vai ter ironia, quando não tem briga e porrada, e às vezes perda de emprego e etc. A situação de hoje já foi oposição, e te garanto que é tão difícil ser oposição quanto ser situação. Abração!”



sábado, 17 de maio de 2014

Cinco anos sem Mario Benedetti



As datas viram marcos quando nos faz lembrar de algo ou alguém importante e que nos faz falta. É esse o caso deste 17 de maio: cinco anos sem o ‘escritor cordial’,  o uruguaio Mario Benedetti.

Benedetti nasceu em 1920 em Paso de los Toros. Aos dois anos mudou com os pais para Tacuarembó, onde começou a estudar alemão na Deutsche e que, mais tarde, fez com que Mario fosse o primeiro tradutor do Kafka no Uruguai. Na sua juventude publicou ainda sete livros sem vender ao menos um exemplar.

Mario foi um jornalista de outro tempo, mas podia adaptar-se muito bem na situação atual dos jornalistas, pelo menos os brasileiros. Foi vendedor, funcionário público, contador, locutor, tradutor, taquígrafo por muitos anos, mas sempre foi também jornalista e escritor. Nunca deixou de escrever e as suas outras profissões serviram de cenário para os seus romances.

A academia também chamava a sua atenção. Dirigiu o Centro de Investigações Literárias, da Casa das Américas e o Departamento de Literatura Hisponoamericana da Faculdade de Humanidades de Montevideo, deixando o cargo somente em 1973, devido a ditadura militar.

A repressão o expulsou de seu país natal, mas o fez um cidadão latino americano e socialista. Por causa da repressão, foi para Argentina, Perú, Cuba e Espanha. Voltou para o seu país somente em 1985, quando a democracia já se reestabelecia.

Da vida escura, escondida, dura e cruel da repressão, resolveu defender a alegria como trincheira, bandeira, princípio, destino, certeza e direito. (Ver o poema Em defesa da alegria)

Benedetti foi um escritor pleno. Teceu poesias, contos, novelas, ensaios, críticas literárias, peças de humor - com o pseudônimo de Damodes - e até canções, presentes no disco Canciones del Más Acá, de 1988.

As suas personagens revelaam as mil facetas e a complexidade da alma humana, desnudando a dialética que movimenta a vida, em que é capaz de mudar até mesmo as circunstâncias mais estabelecidas.

A sua experiência política também serviu como enredo para os seus livros que, às vezes sutil, outras nem tanto, se preocupou com a ideologia, com os valores e com a moral. É essa cena de “Primavera num espelho partido”, em que, em plena ditadura, a personagem aguarda o seu companheiro sair da prisão, mas se apaixona por um amigo dele, que fazia parte da resistência à ditadura junto com seu marido.

A Trégua: amor, nacionalismo e consciência de classe

As mudanças e surpresas que a vida impõem estão em suas obras como o ritmo nas músicas. O escritor de A Trégua, obra que conta o romance entre Avellaneda e o Martín Santomé, funcionário público, viúvo e com 50 anos,  que se apaixona pela jovem  de 24 anos que muda a sua vida e lhe mostra o amor como um dos elementos emblemáticos da vida.

“ O amor breve ou longo, espontâneo ou minuciosamente construído, é de qualquer modo um apogeu nas relações humanas”, descreveu na apresentação de um dos seus 80 livros.

Com A Trégua, uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, revelou a simplicidade, leveza e liberdade existente no amor:

“O plano traçado é a absoluta liberdade. Conhecer-nos e ver o que acontece, deixar que o tempo corra e reavaliar. Não há travas. Não há compromissos. Ela é esplêndida”, escreve Martín em seu diário enquanto esperava a resposta de Avellaneda.

É também nessa grande obra que dois conceitos evidenciam as ideias de nacionalismo e de classe do autor. Santomé está sentado num banco e vê um "operário municipal" cortando grama. Observa o trabalho, compara com o seu, pensa em ser garçom de café e conclui: "Esse que passa ( o de sobretudo comprido, orelha de abano, passo capenga e raivoso), esse é meu semelhante. Ainda ignora que eu existo, mas um dia me verá de frente, de perfil ou de costas, e terá a sensação de que entre nós existe algo secreto, recôndito laço que nos une, que nos dá força para nos entendermos. [...]. Mas não importa; seja como for, é meu semelhante".

Dentro desse mesmo momento de reflexão, demonstra grande pertencimento ao seu país, a sua nação e conclui: "Creio que nesse momento afirmou-se em mim uma convicção: eu sou deste lugar, desta cidade. [...]Cada um é de um só lugar na terra e ali deve pagar sua cota. Eu sou daqui. Aqui pago a minha cota".

Foi também obra de Benedetti traduzir tática e estratégia, dois conceitos que originaram dos planos exatos e da guerra, para a subjetividade da paixão:

“[…]Minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
Minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti […]”

O poema Tática e Estratégia faz parte da reunião de outras diversas poesias em “O amor, as mulheres e a vida”, que se contrapõe ao título do livro de Arthur Schopenhauer , “O amor, as mulheres e a morte” e expressa a opinião de Mario de que as mulheres estão mais próximas da vida do que da morte e que só o amor é capaz de enfrentar a vida finita.

É justamente nessa antologia que Benedetti concentra os dois temas - amor e morte- no poema Última noção de Laura, que explica o final de A Trégua, ou melhor, dar a saída do escritor ao romance intenso e verdadeiro de Avellaneda e Santomé. Desta vez, é a jovem que fala de seu amor:

“[…] você é claro não sabe
já que nunca lhe disse
nem mesmo
naquelas noites em que você me descobre
com as suas mãos incrédulas e livres
você não sabe como dou valor
à sua simples coragem de querer-me”

As obras de Mario Benedetti são universais, são ficções que são articuladas com embates e desenlaces reais, o que faz com que muitos se identifiquem com suas histórias e as tornem como suas. Um dos seus últimos poemas,  resumi a experiência de vida:

[…] temos uma desordem na alma
mas vale a pena sustentá-la
com as mãos / os olhos / a memória
tentemos pelo menos nos enganar
como se o bom amor
fosse a vida […] (Resumo)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Jornal Última Hora: um ponto de luz na escuridão


Na data em que é marcada por um dos episódios mais tristes da história brasileira, 50 anos do golpe militar, é inegável o papel da grande e velha imprensa neste ato. Contudo, há uma luz no fatídico episódio: o papel do jornal Última Hora, único grande jornal contrário ao golpe.

Por Ana Flávia Marx


 O jornal foi o único que defendeu Jango.
 O jornal foi o único que defendeu Jango.

O jornal do chamado “Profeta” Samuel Wainer, criado em 1953, a partir da negação da tese da “imparcialidade” e com o apoio do então presidente Getúlio Vargas, foi o primeiro alvo dos militares junto com a sede da União Nacional dos Estudantes. Com grande circulação nas camadas populares, os golpistas precisaram agir rápido para que o veículo não fosse pilar de alguma reação.

Diferente dos outros jornais que articularam junto com os militares e empresários o golpe, desde o seu início, Última hora imprimia em suas páginas claro posicionamento político. 

Em seus editoriais defendia incisivamente os trabalhadores, a democracia, o desenvolvimento e a soberania nacional. Portanto, sabia que em pleno período da guerra fria, as incertezas com a renúncia de Jânio Quadros trariam conflitos com forte influência da mão pesada dos Estados Unidos. 

As evidências vinham da própria boca das lideranças, principalmente de esquerda, que Wainer tinha relações e mantinha constante diálogos.

Menos de um mês antes do golpe, o dono do Última Hora reuniu se em sua casa com Miguel Arraes, que junto com Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes, dialogava com amplos setores da esquerda. Depois de tomar algumas doses de uísque, Arraes disse à Wainer:

- No dia 13, teu amigo Jango cai, acaba, disse estendendo uma das mãos com o polegar para baixo.

As forças de esquerda queriam mais de Jango. Julgavam o muito conciliador, moderado demais para aqueles tempos de extrema polarização no cenário mundial em que a economia brasileira sentia os efeitos da luta internacional. Na última viagem aos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson mostrou o poderio bélico norte-americano ao presidente Jango em uma contundente forma de intimidação.

Última Hora era um agitador da reformas de base, programa de Jango, e buscava esclarecer com matérias e reportagens especiais sobre as principais reformas. Naquele época, a reforma agrária tinha 74% de apoio, segundo pesquisa Ibope feita em 1964, porém não divulgada.

O próprio presidente Jango tinha uma relação muito próxima com o jornal Última Hora. Uma prova disso é o diálogo, do começo de 1964, em que o presidente comunicou Samuel Wainer que prenderia Humberto de Alencar Castello Branco, então chefe do Estado Maior do Exército.

A resposta do jornalista é que daria a manchete na primeira página, desde que o cárcere fosse efetivado, senão ficaria desmoralizado. E escutou do presidente:

- Vou mandar prender o general Castello Branco. Quem está dizendo isso é o presidente da República.

Depois de dar a grande manchete, quando o jornal não havia nem esquentado as bancas, João Goulart recebia em audiência o chefe das forças armadas, que já encabeçava as articulações do golpe.

Mesmo com a barriga imposta pelo presidente, o editor do Última Hora manteve contato com o dirigente brasileiro, pelo menos até aquela hora.

No dia 31 de março, por telefone, Jango fez o convite para que Wainer fosse com ele para Brasília, que respondeu:

- Não, Jango, não vou. Tu vais defender a tua presidência, eu vou defender o meu jornal.

Sentindo o “azedume” do golpe, Wainer foi naquele mesmo dia pedir asilo na embaixada do Chile.

Como a maioria das pessoas, o jornalista acreditava que o golpe não duraria muito tempo e que seu jornal viveria aqueles tempos atormentadores. Mas as sucursais do Última Hora viveu, de acordo com a realidade política de cada estado, situações diferentes.

O primeiro ato dos correligionários de Carlos Lacerda foi correrem para acabar com toda a infraestrutura do jornal. Com o empastelamento, o jornal voltou a circular no dia três de abril, somente com duas páginas, mas com os traços críticos da charge de Jaguar. 



Em São Paulo, o jornal retomou a sua rotina depois de 21 dias. “Quando voltou às bancas, perdera definitivamente a força de outros tempos, vergando-se à anemia que precipitaria sua venda e, mais tarde, sua morte”, escreveu o jornalista em suas memórias.

O jornal chegou a escrever que defendia “o futuro contra a cobiça dos interesses monopolistas internacionais – o que de resto constitui o centro de toda essa onda conspirativa contra as nossas instituições democráticas”.

Viver em uma ditadura militar era uma missão impossível, como um peixe fora d’água. Sem democracia, que era seu leito e justamente a brecha que havia utilizado para fundar o jornal, sem poder dialogar com os trabalhadores que há mais de duas décadas saiam da área rural em direção às grandes cidades, o jornal que desafiava a ditadura com manchetes como “Eleições, só de Miss”, foi vendido no dia 21 de abril de 1972.

Fontes consultadas: Minha razão de viver, Samuel Wainer e A Última Hora nos tempos de Wainer, da Associação Brasileira de Imprensa.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O que eu queria ser...

Era exatamente essa edição que me acompanhava para cima e para baixo


No começo da minha vida militante, ganhei um livro sobre a Guerrilha do Araguaia, o título era “Guerrilha do Araguaia: Uma epopeia pela liberdade”. O livro rico em detalhes e análise sobre a guerrilha, em sua contracapa tinha  fotos de jovens que foram mortos naquela luta.

Andava com aquele livro pra cima e pra baixo, como se fosse o meu cartão de visitas, meu descanso no ônibus, meu pote de energia para as batalhas que enfrentava. Batalhas essas que não chega ao dedo mínimo daquela histórica.

Um dia, conversando com outros jovens sobre a perspectiva militante de cada, um cara ao ser questionado sobre o que queria ser, qual caminho queria prosseguir no partido disse:

- Todo mundo quer ser do comitê central, mas o meu sonho é ser da executiva nacional da UJS (União da Juventude Socialista, organização que todos da rodinha faziam parte).

Achei respeitável a opinião dele e não disse a minha porque tinha fama de esquerdista e esse rótulo já estava se transformando em algo superficial naquele ambiente. Então, não falei o que queria ser “quando crescer” na militância.

Hoje, sem sombra de dúvida, desabafo. Queria ser uma daquelas jovens que figuravam na contracapa do livro sobre a Guerrilha.


É claro que gosto de viver em um regime democrático, sei que o contexto é diferente, mas é esse sentido que quero dar para minha existência.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Avião de aliado de Aécio levava mais de 400 kg de cocaína

O avião com 443 quilos de pasta de cocaína foi apreendido em Afonso Cláudio, região serrana do Espírito Santo e pertence à empresa Limeira Agropecuária, da família do senador mineiro Zezé Perrela, amigo de Aécio Neves.


Facebook
 Aécio e Ze Perrela  "Pó, pará Governador?"

O responsável pela empresa, o filho de Perrela, circula por aí, pelos estádios de futebol e pelas intensas noites cariocas com Aécio.

O advogado da família Perrela, disse que o funcionário da empresa pegou o avião sem autorização e registrou um boletim de ocorrência de furto da aeronave, uma Robson 66.

A Polícia Federal desconfia que a área em que foi apreendida a droga, seja rota de tráfico internacional e a carga seguiria para Europa.

Mais um caso de tráfico drogas? Talvez, um caso em que seja revelada a participação de um grande empresário e senador no crime. Ou um piloto de uma empresa que tendo o helicóptero facilmente em suas mãos, decidiu fazer um serviço para ganhar uma hora extra. A investigação poderá explicar melhor essa história, até agora mal contada.

A PF não divulgou o nome dos suspeitos, mas o Estado de Minas reporta que foram presos o piloto Rogério Almeida Antunes, de 36 anos, que é natural de Campinas, São Paulo, o copiloto Alexandre José de Oliveira Júnior, de 26 anos, o comerciante Róbson Ferreira Dias, de 56, e Everaldo Lopes de Souza, de 37.

Aqueles que têm boa memória lembrarão matéria de Mauro Chaves no Estadão, em que Serra mandava um recado para Aécio Neves: “Pó, pará Governador?”

E para aqueles que acreditam na "imparcialidade" da grande mídia, podem dizer, se  fosse alguém de esquerda, quantas manchetes já teríamos sobre o assunto? Porque até agora, não vi nenhuma. Ainda bem que existe a internet para equilibrar um pouco mais essa luta.

Entenda o recado de Serra para Aécio, com matéria do Blog da Cidadania

terça-feira, 18 de junho de 2013

Relato da manifestação de ontem: “Há todo instante rola um movimento que muda os rumos dos ventos”



Embora poucos, manifestantes levantaram cartazes contra a grande mídia

 Ontem fui participar do movimento que está acontecendo aqui em São Paulo. Desde quinta-feira estava, como muitos, com um grito entalado na garganta perante tanta repressão aos manifestantes. Quando olhei a lista de pessoas presas publicada por um jornal, fiquei ainda mais entusiasmada, pois na lista constavam professores, artistas, garçonetes, desempregados e, claro, estudantes.

Fiquei eufórica e mesmo sem ter ido, me identifiquei com a manifestação, reforçada pela constatação cotidiana de que esse sistema de transporte está bem longe para ser considerado de má qualidade. É mais do que péssimo!

Então, com o coração acelerado, fui para a manifestação. Já no metrô, várias pessoas falavam de vinagre, posts que viram nas redes sociais e que aquele ou outro amigo também iria. Pensei: “Vai bombar”.

O gigante acordou?

Assim que desci na estação Faria Lima, vi centenas de pessoas gritaram: “ôôôhh... o Gigante acordou, o gigante acordou”. Fui da euforia à depressão e na escada rolante me indignei:

-Como acordou gente? E o eleição do Lula e da Dilma, a luta pela reserva de vagas, as manifestações contra a guerra do Iraque,  a luta contra privatização da Vale, o pau cantando nas nossas costas nos anos de pico do neoliberalismo?

Foi aí que um menino, que faz cursinho no Anglo, virou pra mim e deu um sorriso, do tipo “nem sei o que você está falando”. Esse sorriso me fez entender muito sobre aquele público. Aqueles jovens não votaram no Lula ( e se bobear nem na Dilma), não lembram o que é Alca, não estavam nas ruas, não conhecem essa pauta. Infelizmente.

Milhares às ruas

Continuei andando. E percebi que estava acontecendo algo novo na cidade. Quem participa de entidade, organização não governamental, movimento social ou sindical sabe o quanto é difícil levar as pessoas para as ruas para protestar. E foi contagiante.

Manifestantes levantaram flores
e gritavam "sem violência"
Não há qualquer pessoa que acredita que a mobilização de massa é motor para transformações profundas e não encha seu coração de esperança quando vê as ruas cheias, pessoas com as caras pintadas, a bandeira do Brasil tremulando, grupos cantando o hino do Brasil, pessoas que quando se viram refletidas nos grandes prédios espelhados, gritavam e vibravam pelo tamanho da passeata. Lógico que essas cenas nos enchem de esperança.

Já com mais esperança passei por quase toda a passeata. Ia e vinha, passando por vários grupos e assim ouvi algumas das palavras de ordem:

Contra a PEC 37 Contra o mensalão Contra a Copa Contra o bolsa família Contra Belo Monte Contra a transposição do rio São Francisco Contra a existência da PM Contra os governos Contra a bolsa estupro Contra Dilma Contra Haddad Contra Alckmin Contra a pesquisa do Datena Contra a corrupção Contra a rede Globo Contra a revista Veja Pelo fim do vestibular Contra José Eduardo Cardoso Por metrô 24 horas Contra a política Contra os Partidos. Pela redução da passagem, R$3,20 não dá! (Assim, tudo sem vírgula mesmo, para tirar o fôlego)

No meio das andanças para ver quais eram as bandeiras levantadas nessa salada, lembrei da matéria da Veja e do artigo do Arnaldo Jabor, intitulado “Eu errei, não era só por 0,20 centavos”, em que constava boa parte das reivindicações levantadas por Jabor. Resultado, a mídia ajudou a mobilizar e as suas pautas estão pegando igual adesivo de campanha eleitoral, que cola na blusa e nunca mais sai.

A onda da ideologia dominante que prega ser contra os partidos e o culto ao individualismo também estava presente na passeata. Histéricos, gritavam
as palavras de ordem: “O povo unido não precisa de partido” ou “Queima a bandeira do PT”. Um absurdo, violento, antidemocrático que beirava o fascismo.

Triste. Uma massa, desgovernada - literalmente, com inúmeras bandeiras, de todos os tipos, virando a direita. Triste. Mesmo que o Movimento pelo passe livre tenha focado na questão da tarifa, que foi correto, faltou eles combinarem com os russos. Nas ruas, os cartazes foram além.

Alckmin está saindo ileso. Pressão está em cima de Haddad
É bom deixar claro, que foram alguns poucos espontâneos  que levantaram cartaz contra o Alckmin. Além desses espontâneos, os movimentos sociais “tradicionais” como Educafro, Uneafro, Levante Popular da Juventude, UNE, UBES, UMES, PSOl, Partido Pátria Livre, UJS e JPT direcionaram a sua mira ao governador.


Mudanças no jeito de fazer política

O recado que ouvi das ruas é que a política precisa ser mudada. É claro que alguns pensem: “É por isso que lutamos pela reforma política”.

Está bem. Estou falando disso, mas não só.

A lógica da política baseada nas suas superlideranças, superprefeitos, superpresidências, superdeputados, supervereadores, precisa ser mudada. É preciso ter democracia de fato nas instituições, das prefeituras ao governo nacional. Mudar da lógica de que as intervenções devem passar exclusivamente por Fulano ou Beltrano. E isso acontece em todos os partidos e até mesmo aqueles que se apresentam sob os nomes mais diversos, mesmo sob o nome de antipartido e de negação dos partidos”, como observou Gramsci.


O equilíbrio entre as frentes de atuação, como os movimentos sociais também deve estar na pauta no dia. Além de as entidades serem vistas como instrumentos de mobilização, unicamente, mas como espaços de elaboração de política.

Para fechar, é bom lembrar Paulinho da Viola: “Há todo instante rola um movimento que muda os rumos do vento”. Que esse vento vá para a esquerda. Vamos à disputa.

A toda hora rola uma história,
que é preciso estar atento.
 A todo instante rola um movimento
que muda o rumo dos ventos. Quem sabe remar não estranha”

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Rebelde do Traço


Fiz essa postagem em setembro de 2009 no blog Versos e Prosa (link ao lado).
Hoje faz 25 anos sem Henfil e repito a homenagem.


Homenagem para Henfil


Militante do movimento social e político, mineiro, cartunista, escritor, e jornalista, Henriquinho, filho da inspiradora D. Maria mos deixou traços inconfundíveis.

Em todas as suas atividades, lá estava à bandeira da democracia brasileira. Escrevia cartas para o povo brasileiro, driblando a ditadura com a imagem e características de sua mãe doce e compreensiva. Sofreu com AI 5, seu irmão Betinho foi exilado; no livro Diretas já ele ataca diretamente os grupos oligárquicos do Brasil, que atuavam no centro da política.

O silêncio da Graúna apresentava o grito daqueles que queriam eleger o seu presidente. Sutil e sensível tocava os seus iguais:

"Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto.”

“Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês”

Mesmo hemofílico, mesmo sabendo que a sua vida poderia ser mais curta que a luta, ele lutava todos os dias, com lápis e papel, com esperança e medo, com silêncio ou paranóia.

Somos tudo que lemos, que vimos, ouvimos; todos os nossos sentidos, todas as relações que já tivemos; todos os projetos que já nos engajamos, todos os protestos que já fomos; todos os atos que não fomos.

A nossa consciência e inconsciência ganha forma para quem esteja interessado em coletivizar e disponibilizar, sem medo do julgamento, da critica e autocrítica. Por isso não só a primeira postagem do blog é uma homenagem a Henfil, mas sim a própria iniciativa de divulgar as nossas em um blog, sem ter como objetivo apenas o contador de visitas.


Cartas da Mãe - Publicada na revista "Isto é", em 1978.

Mãe,



Fiquei muito alegre quando os dubladores entraram em greve. Hah, sim, lembrei. Isso não é do tempo da senhora. Dubladores são aqueles que fazem a voz no lugar dos outros. Por exemplo, a voz da Kelly, uma das panteras, quem faz é a Neuza Amaral. A da Farrah, é a Marilisi….

A greve é justa, questão trabalhista. Ponto final.

Eu estou satisfeito é porque, depois do advento dos dubladores, nunca mais ouvimos a voz real do Kojak. Ficou chatíssimo ver filme de TV. Tanto faz ser John Wayne, Woody Allen ou Baretta. A voz é sempre a mesma do mesmo dublador. E a aflição que dá ver o Marlon Brando movendo os lábios assim, e a voz saindo assado?

Talvez o desespero que toma conta da gente, quando vê um filme dublado, seja apenas identificação. Nossa situação é a mesma, mãe! Nunca notou que a minha voz, a voz da senhora, do Carlito, da Regina, do Alfredo, da Jane, da Nelma, do Humberto, do Ivan, a voz de 110 milhões de brasileiros é feita pelo mesmo dublador?

Eu quero ouvir a minha voz!

Um beijo do seu filho,



Henfil

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Imagens de São Paulo

Existe vida calma no estado de São Paulo e água limpa no Rio Tietê. 

À beira do Rio Tietê em Ubarana - SP

Comer, amar e ler...




Depois de um ano agitado, nada melhor que o aconchego da família para recarregar as energias.
Oriunda de uma família que aprecia a boa culinária, logo na chegada na casa de minha mãe, ela indaga meu marido:
- Marcelo, o que você quer comer?
Ele, um pouco sem graça e desacostumado, responde:
- Qualquer coisa, mas pode ser um bife à parmeggiana.
Ela atende seu pedido.
A tia liga e pergunta:
- Vocês gostam de Javali assado?
-Hummm... tia, que delicia. É claro que gostamos.
Depois do almoço, um descanso merecido, em frente dos diversos canais (que não temos), um assistir descompromissado que termina em um sono leve facilitado com o vento que emana do ventilador.
Acordamos e no meio da tarde, para embalar aquela leitura leve que ficamos devendo durante o ano, um café forte e puro já nos espera na mesa.
Acompanhados com Stendhal e Raduan Nassar, seguimos calmamente para nosso cantinho de descanso. E entre um parágrafo e outro, entre uma pergunta de significado de alguma palavra desconhecida, o êxtase de uma frase justa, um carinho.
Fazer carinho com os pés no pé dele, um beijo carinhoso, uma expressão de mais carinho.
Uma mão no livro e outra no peito – no dele.
Uma mão no livro e outra no rosto –  no meu.
E assim, devagar, deliciosamente, vamos aproveitando o descanso merecido.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Crônica (de uma vida) anunciada



Há um ano, quando Janaína chegava de Marília, ela me contava sobre sua primeira aventura na "Paulicéia Desvairada". Anotei e hoje reescrevo neste blog.
Para Janaína, sem medo de ser feliz


Depois de mais de quatro horas no ônibus, suportando a ansiedade, enfim, ela pôs os pés em solo paulistano.
Não conseguiu dormir durante a viagem e, ao descer do Prata, seus olhos estavam embaçados.
Sem saber direito para onde ir, ela pegou suas malas e olhou ao seu redor. Pensou:
- Nossa, quanta gente. É gente demais mesmo.
Era ônibus saindo, chegando, pessoas acenando, criança correndo e outras gritando.
Até que apareceu alguém para ajudar.
- Moça, posso levar as suas malas?
- Pode, disse ela.
Pensou: que pessoas agradáveis, só por ver aqui sem conseguir carregar as malas, mesmo sem eu pedir, me socorreu.
Enquanto ele levava suas malas, ela seguia atrás, sem saber direito para onde estava indo, mas refletia o quanto seria bom viver em São Paulo, nessa grande cidade.
Sem medo, ela o seguia com passos firmes. Até que logo quando chegou na catraca do metrô Barra Funda, o homem que carregava as malas, abriu-lhe um sorriso e disse ao passar as malas pra ela:
- São seis reais.
Ela, ficou alguns segundos sem ter o que falar. Tirou o dinheiro da carteira, pagou o simpático cidadão; olhou pra cima e viu a placa:
- Bem-vindo a São Paulo.
Pegou as malas e seguiu em direção ao Paraíso.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Existe Amor em São Paulo

Era um dia daqueles.Voltando da USP, na linha Amarela do metrô, vi um homem que me chamou atenção por sua serenidade. Não sou poeta, mas as linhas abaixo foram escritas no vagão, sem ele perceber que havia me dado tanta esperança no ser humano.


Existe Amor em São Paulo


Com roupas nitidamente velhas,
Tênis Nike suado
Mochila atada com barbante,
Os lírios chamaram atenção

Com  olhar lúcido e firme
As flores brancas deram a manchete
De uma vida doída, porém esperançosa

Deu vontade de puxar papo,
Perguntar para quem eram aquelas flores
De saber mais da sua vida

Mas fiz melhor
Imaginei:
Ele abre o portão e é anunciado
Por um grunhido que denuncia a falta de óleo

Encontra a sua mulher com olhos cansados
E ela abre um largo sorriso
- Toma, é pra tu.
Diz ele timidamente

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudade inexplicável



Após alguns meses de meu ingresso no movimento secundarista, fui à atividade da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, da UBES, em Niterói. Na mesma cidade onde foi fundado o Partido Comunista do Brasil.

Com todo esse contexto simbólico, eu estava empolgadíssima, até mesmo porque depois de descobrir tanta coisa nova, pessoas legais, ideias transformadoras, ficamos eufóricos naturalmente.

Durante a plenária final, quando os nervos sempre ficam a flor da pele, uma juventude sem sentido estratégico (que, pelo fato, não vale a pena citar) puxou uma palavra de ordem xingando o João Amazonas. Era assim: “PCdoB para de zona, vamos empalhar o João Amazonas”.

Eles nem tinham acabado a frase quando uma multidão de militantes da UJS já estava em cima deles. Foi uma grande confusão, para não dizer pancadaria.

Mesmo depois de a poeira baixar, mesmo os dirigentes, diziam: “Como eles ousam citar o nome do João Amazonas?”.O sentimento é que ele estava ali, em meio a tantas meninas e meninos que deixaram suas casas para estar defendendo a educação brasileira e um país mais justo.

Durante a homenagem que aconteceu na Câmara Municipal de São Paulo o sentimento não foi menor. Foi mais consciente, pois depois de muitos anos, depois de passear pela formulação de Amazonas, parafraseando Einstein, não tem como a nossa mente voltar ao estado anterior.

Mesmo em outro estágio de compreensão da luta pelo socialista a emoção veio à tona.
Já durante o vídeo (link abaixo) as lágrimas rolaram por minha face. Na reflexão sobre a intervenção do presidente do PCdoB, ficou um vazio, uma saudade que é difícil de explicar porque eu não conhecia Amazonas.

O vazio parece-me, que é por sentir falta de alguém que se debruce para entender a realidade e elaborar uma teoria revolucionária para o país. Parece-me que no mundo todo faltam homens como João Amazonas, mas sobram perguntas a serem respondidas e vou além, faltam perguntas mais justas e coerentes serem formuladas.

Ainda hoje tento explicar e justificar para mim mesma o porquê dessa saudade, que não é um certo saudosismo. Ou será?

Espero que eu esteja no caminho para entender o papel de João Amazonas e o sentido que deu para toda a sua vida.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

“Porque os ouvidos da minha vida se abrirão como as flores”, Adalgisa Nery





Esse blog passa a ater como título homônimo da coluna da jornalista Adalgisa Nery, que inspirou Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. Que sua coragem e vivacidade inspirem novas gerações que só querem ver um país forte e soberano.


Tive meu primeiro contato com Adalgisa Nery (Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira, seu nome de batismo) no final do ano passado. Enquanto realizava uma pesquisa nas edições do jornal A Última Hora, do grande jornalista Samuel Wainer, me deparei com a sua coluna “Retrato sem retoque”.

A coluna de Adalgisa me chamou atenção pela vivacidade de suas palavras. Também pudera. Desde criança sua postura era essa: viva perante a inércia do status quo. Na adolescência, quando estudou em um colégio de freiras, foi expulsa por defender as órfãs que eram consideradas subalternas e, por isso, eram muito maltratadas.

Seu primeiro casamento foi com o pintor Ismael Nery, precursor do Modernismo no Brasil, com quem casou aos 16 anos e ficou até a morte do artista.

Depois de Ismael, Adalgisa casou-se com o jornalista e advogado Lourival Fontes, diretor do temível Departamento de Imprensa e Propaganda. Mas antes que um leitor já a julgue pela trajetória de seu marido é importante salientar – em tempo - que ela utilizava a profissão do seu marido como seu escudo para escrever sobre a história que participava.

Adalgisa era diferente dos personagens daquele enredo ditador. Ao visitar o México, mesmo em agenda de Lourival, ficou amiga de Diego Rivera – que chegou a pintá-la - e Frida Kahlo. Depois da separação do casal, Adalgisa escreveu histórias que só sabiam quem acompanhava o convívio dos militares.

Jornalismo e Política

Depois da sua separação com Fontes, Adalgisa mergulhou no jornalismo. Sua coluna é um verdadeiro retrato sobre a política no governo Vargas.

Por ter intimidade com as pautas militaristas, ela sabia o que estava por vir. E não ficou calada. Sua coluna denunciava os limites do militarismo, suas tramas e uma sólida opinião sobre o patamar e desafios do desenvolvimento do país.

Sua coluna foi um sucesso entre os leitores. Adalgisa era reconhecida por sua opinião e pelo enfrentamento que fazia às forças poderosas. E, como uma líder daquele tempo, foi eleita deputada três vezes, primeiro pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, depois, pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Em 1969 teve seu mandato e direitos políticos cassados e voltou a escrever poesia.

Poesia

Ela que já tinha sido a musa inspiradora de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, após anos sem publicar poesias, voltou a escrever.

Quem lê os poemas de Adalgisa sente o peso de sua trajetória. Suas poesias são sofridas, desalentadas e solitárias, mas mesmo assim belíssimas.

Adalgisa morreu em uma casa de repouso, em 1980, três anos depois de ter um acidente vascular cerebral.

“E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma