terça-feira, 1 de abril de 2014

Jornal Última Hora: um ponto de luz na escuridão


Na data em que é marcada por um dos episódios mais tristes da história brasileira, 50 anos do golpe militar, é inegável o papel da grande e velha imprensa neste ato. Contudo, há uma luz no fatídico episódio: o papel do jornal Última Hora, único grande jornal contrário ao golpe.

Por Ana Flávia Marx


 O jornal foi o único que defendeu Jango.
 O jornal foi o único que defendeu Jango.

O jornal do chamado “Profeta” Samuel Wainer, criado em 1953, a partir da negação da tese da “imparcialidade” e com o apoio do então presidente Getúlio Vargas, foi o primeiro alvo dos militares junto com a sede da União Nacional dos Estudantes. Com grande circulação nas camadas populares, os golpistas precisaram agir rápido para que o veículo não fosse pilar de alguma reação.

Diferente dos outros jornais que articularam junto com os militares e empresários o golpe, desde o seu início, Última hora imprimia em suas páginas claro posicionamento político. 

Em seus editoriais defendia incisivamente os trabalhadores, a democracia, o desenvolvimento e a soberania nacional. Portanto, sabia que em pleno período da guerra fria, as incertezas com a renúncia de Jânio Quadros trariam conflitos com forte influência da mão pesada dos Estados Unidos. 

As evidências vinham da própria boca das lideranças, principalmente de esquerda, que Wainer tinha relações e mantinha constante diálogos.

Menos de um mês antes do golpe, o dono do Última Hora reuniu se em sua casa com Miguel Arraes, que junto com Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes, dialogava com amplos setores da esquerda. Depois de tomar algumas doses de uísque, Arraes disse à Wainer:

- No dia 13, teu amigo Jango cai, acaba, disse estendendo uma das mãos com o polegar para baixo.

As forças de esquerda queriam mais de Jango. Julgavam o muito conciliador, moderado demais para aqueles tempos de extrema polarização no cenário mundial em que a economia brasileira sentia os efeitos da luta internacional. Na última viagem aos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson mostrou o poderio bélico norte-americano ao presidente Jango em uma contundente forma de intimidação.

Última Hora era um agitador da reformas de base, programa de Jango, e buscava esclarecer com matérias e reportagens especiais sobre as principais reformas. Naquele época, a reforma agrária tinha 74% de apoio, segundo pesquisa Ibope feita em 1964, porém não divulgada.

O próprio presidente Jango tinha uma relação muito próxima com o jornal Última Hora. Uma prova disso é o diálogo, do começo de 1964, em que o presidente comunicou Samuel Wainer que prenderia Humberto de Alencar Castello Branco, então chefe do Estado Maior do Exército.

A resposta do jornalista é que daria a manchete na primeira página, desde que o cárcere fosse efetivado, senão ficaria desmoralizado. E escutou do presidente:

- Vou mandar prender o general Castello Branco. Quem está dizendo isso é o presidente da República.

Depois de dar a grande manchete, quando o jornal não havia nem esquentado as bancas, João Goulart recebia em audiência o chefe das forças armadas, que já encabeçava as articulações do golpe.

Mesmo com a barriga imposta pelo presidente, o editor do Última Hora manteve contato com o dirigente brasileiro, pelo menos até aquela hora.

No dia 31 de março, por telefone, Jango fez o convite para que Wainer fosse com ele para Brasília, que respondeu:

- Não, Jango, não vou. Tu vais defender a tua presidência, eu vou defender o meu jornal.

Sentindo o “azedume” do golpe, Wainer foi naquele mesmo dia pedir asilo na embaixada do Chile.

Como a maioria das pessoas, o jornalista acreditava que o golpe não duraria muito tempo e que seu jornal viveria aqueles tempos atormentadores. Mas as sucursais do Última Hora viveu, de acordo com a realidade política de cada estado, situações diferentes.

O primeiro ato dos correligionários de Carlos Lacerda foi correrem para acabar com toda a infraestrutura do jornal. Com o empastelamento, o jornal voltou a circular no dia três de abril, somente com duas páginas, mas com os traços críticos da charge de Jaguar. 



Em São Paulo, o jornal retomou a sua rotina depois de 21 dias. “Quando voltou às bancas, perdera definitivamente a força de outros tempos, vergando-se à anemia que precipitaria sua venda e, mais tarde, sua morte”, escreveu o jornalista em suas memórias.

O jornal chegou a escrever que defendia “o futuro contra a cobiça dos interesses monopolistas internacionais – o que de resto constitui o centro de toda essa onda conspirativa contra as nossas instituições democráticas”.

Viver em uma ditadura militar era uma missão impossível, como um peixe fora d’água. Sem democracia, que era seu leito e justamente a brecha que havia utilizado para fundar o jornal, sem poder dialogar com os trabalhadores que há mais de duas décadas saiam da área rural em direção às grandes cidades, o jornal que desafiava a ditadura com manchetes como “Eleições, só de Miss”, foi vendido no dia 21 de abril de 1972.

Fontes consultadas: Minha razão de viver, Samuel Wainer e A Última Hora nos tempos de Wainer, da Associação Brasileira de Imprensa.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O que eu queria ser...

Era exatamente essa edição que me acompanhava para cima e para baixo


No começo da minha vida militante, ganhei um livro sobre a Guerrilha do Araguaia, o título era “Guerrilha do Araguaia: Uma epopeia pela liberdade”. O livro rico em detalhes e análise sobre a guerrilha, em sua contracapa tinha  fotos de jovens que foram mortos naquela luta.

Andava com aquele livro pra cima e pra baixo, como se fosse o meu cartão de visitas, meu descanso no ônibus, meu pote de energia para as batalhas que enfrentava. Batalhas essas que não chega ao dedo mínimo daquela histórica.

Um dia, conversando com outros jovens sobre a perspectiva militante de cada, um cara ao ser questionado sobre o que queria ser, qual caminho queria prosseguir no partido disse:

- Todo mundo quer ser do comitê central, mas o meu sonho é ser da executiva nacional da UJS (União da Juventude Socialista, organização que todos da rodinha faziam parte).

Achei respeitável a opinião dele e não disse a minha porque tinha fama de esquerdista e esse rótulo já estava se transformando em algo superficial naquele ambiente. Então, não falei o que queria ser “quando crescer” na militância.

Hoje, sem sombra de dúvida, desabafo. Queria ser uma daquelas jovens que figuravam na contracapa do livro sobre a Guerrilha.


É claro que gosto de viver em um regime democrático, sei que o contexto é diferente, mas é esse sentido que quero dar para minha existência.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Avião de aliado de Aécio levava mais de 400 kg de cocaína

O avião com 443 quilos de pasta de cocaína foi apreendido em Afonso Cláudio, região serrana do Espírito Santo e pertence à empresa Limeira Agropecuária, da família do senador mineiro Zezé Perrela, amigo de Aécio Neves.


Facebook
 Aécio e Ze Perrela  "Pó, pará Governador?"

O responsável pela empresa, o filho de Perrela, circula por aí, pelos estádios de futebol e pelas intensas noites cariocas com Aécio.

O advogado da família Perrela, disse que o funcionário da empresa pegou o avião sem autorização e registrou um boletim de ocorrência de furto da aeronave, uma Robson 66.

A Polícia Federal desconfia que a área em que foi apreendida a droga, seja rota de tráfico internacional e a carga seguiria para Europa.

Mais um caso de tráfico drogas? Talvez, um caso em que seja revelada a participação de um grande empresário e senador no crime. Ou um piloto de uma empresa que tendo o helicóptero facilmente em suas mãos, decidiu fazer um serviço para ganhar uma hora extra. A investigação poderá explicar melhor essa história, até agora mal contada.

A PF não divulgou o nome dos suspeitos, mas o Estado de Minas reporta que foram presos o piloto Rogério Almeida Antunes, de 36 anos, que é natural de Campinas, São Paulo, o copiloto Alexandre José de Oliveira Júnior, de 26 anos, o comerciante Róbson Ferreira Dias, de 56, e Everaldo Lopes de Souza, de 37.

Aqueles que têm boa memória lembrarão matéria de Mauro Chaves no Estadão, em que Serra mandava um recado para Aécio Neves: “Pó, pará Governador?”

E para aqueles que acreditam na "imparcialidade" da grande mídia, podem dizer, se  fosse alguém de esquerda, quantas manchetes já teríamos sobre o assunto? Porque até agora, não vi nenhuma. Ainda bem que existe a internet para equilibrar um pouco mais essa luta.

Entenda o recado de Serra para Aécio, com matéria do Blog da Cidadania

terça-feira, 18 de junho de 2013

Relato da manifestação de ontem: “Há todo instante rola um movimento que muda os rumos dos ventos”



Embora poucos, manifestantes levantaram cartazes contra a grande mídia

 Ontem fui participar do movimento que está acontecendo aqui em São Paulo. Desde quinta-feira estava, como muitos, com um grito entalado na garganta perante tanta repressão aos manifestantes. Quando olhei a lista de pessoas presas publicada por um jornal, fiquei ainda mais entusiasmada, pois na lista constavam professores, artistas, garçonetes, desempregados e, claro, estudantes.

Fiquei eufórica e mesmo sem ter ido, me identifiquei com a manifestação, reforçada pela constatação cotidiana de que esse sistema de transporte está bem longe para ser considerado de má qualidade. É mais do que péssimo!

Então, com o coração acelerado, fui para a manifestação. Já no metrô, várias pessoas falavam de vinagre, posts que viram nas redes sociais e que aquele ou outro amigo também iria. Pensei: “Vai bombar”.

O gigante acordou?

Assim que desci na estação Faria Lima, vi centenas de pessoas gritaram: “ôôôhh... o Gigante acordou, o gigante acordou”. Fui da euforia à depressão e na escada rolante me indignei:

-Como acordou gente? E o eleição do Lula e da Dilma, a luta pela reserva de vagas, as manifestações contra a guerra do Iraque,  a luta contra privatização da Vale, o pau cantando nas nossas costas nos anos de pico do neoliberalismo?

Foi aí que um menino, que faz cursinho no Anglo, virou pra mim e deu um sorriso, do tipo “nem sei o que você está falando”. Esse sorriso me fez entender muito sobre aquele público. Aqueles jovens não votaram no Lula ( e se bobear nem na Dilma), não lembram o que é Alca, não estavam nas ruas, não conhecem essa pauta. Infelizmente.

Milhares às ruas

Continuei andando. E percebi que estava acontecendo algo novo na cidade. Quem participa de entidade, organização não governamental, movimento social ou sindical sabe o quanto é difícil levar as pessoas para as ruas para protestar. E foi contagiante.

Manifestantes levantaram flores
e gritavam "sem violência"
Não há qualquer pessoa que acredita que a mobilização de massa é motor para transformações profundas e não encha seu coração de esperança quando vê as ruas cheias, pessoas com as caras pintadas, a bandeira do Brasil tremulando, grupos cantando o hino do Brasil, pessoas que quando se viram refletidas nos grandes prédios espelhados, gritavam e vibravam pelo tamanho da passeata. Lógico que essas cenas nos enchem de esperança.

Já com mais esperança passei por quase toda a passeata. Ia e vinha, passando por vários grupos e assim ouvi algumas das palavras de ordem:

Contra a PEC 37 Contra o mensalão Contra a Copa Contra o bolsa família Contra Belo Monte Contra a transposição do rio São Francisco Contra a existência da PM Contra os governos Contra a bolsa estupro Contra Dilma Contra Haddad Contra Alckmin Contra a pesquisa do Datena Contra a corrupção Contra a rede Globo Contra a revista Veja Pelo fim do vestibular Contra José Eduardo Cardoso Por metrô 24 horas Contra a política Contra os Partidos. Pela redução da passagem, R$3,20 não dá! (Assim, tudo sem vírgula mesmo, para tirar o fôlego)

No meio das andanças para ver quais eram as bandeiras levantadas nessa salada, lembrei da matéria da Veja e do artigo do Arnaldo Jabor, intitulado “Eu errei, não era só por 0,20 centavos”, em que constava boa parte das reivindicações levantadas por Jabor. Resultado, a mídia ajudou a mobilizar e as suas pautas estão pegando igual adesivo de campanha eleitoral, que cola na blusa e nunca mais sai.

A onda da ideologia dominante que prega ser contra os partidos e o culto ao individualismo também estava presente na passeata. Histéricos, gritavam
as palavras de ordem: “O povo unido não precisa de partido” ou “Queima a bandeira do PT”. Um absurdo, violento, antidemocrático que beirava o fascismo.

Triste. Uma massa, desgovernada - literalmente, com inúmeras bandeiras, de todos os tipos, virando a direita. Triste. Mesmo que o Movimento pelo passe livre tenha focado na questão da tarifa, que foi correto, faltou eles combinarem com os russos. Nas ruas, os cartazes foram além.

Alckmin está saindo ileso. Pressão está em cima de Haddad
É bom deixar claro, que foram alguns poucos espontâneos  que levantaram cartaz contra o Alckmin. Além desses espontâneos, os movimentos sociais “tradicionais” como Educafro, Uneafro, Levante Popular da Juventude, UNE, UBES, UMES, PSOl, Partido Pátria Livre, UJS e JPT direcionaram a sua mira ao governador.


Mudanças no jeito de fazer política

O recado que ouvi das ruas é que a política precisa ser mudada. É claro que alguns pensem: “É por isso que lutamos pela reforma política”.

Está bem. Estou falando disso, mas não só.

A lógica da política baseada nas suas superlideranças, superprefeitos, superpresidências, superdeputados, supervereadores, precisa ser mudada. É preciso ter democracia de fato nas instituições, das prefeituras ao governo nacional. Mudar da lógica de que as intervenções devem passar exclusivamente por Fulano ou Beltrano. E isso acontece em todos os partidos e até mesmo aqueles que se apresentam sob os nomes mais diversos, mesmo sob o nome de antipartido e de negação dos partidos”, como observou Gramsci.


O equilíbrio entre as frentes de atuação, como os movimentos sociais também deve estar na pauta no dia. Além de as entidades serem vistas como instrumentos de mobilização, unicamente, mas como espaços de elaboração de política.

Para fechar, é bom lembrar Paulinho da Viola: “Há todo instante rola um movimento que muda os rumos do vento”. Que esse vento vá para a esquerda. Vamos à disputa.

A toda hora rola uma história,
que é preciso estar atento.
 A todo instante rola um movimento
que muda o rumo dos ventos. Quem sabe remar não estranha”

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Rebelde do Traço


Fiz essa postagem em setembro de 2009 no blog Versos e Prosa (link ao lado).
Hoje faz 25 anos sem Henfil e repito a homenagem.


Homenagem para Henfil


Militante do movimento social e político, mineiro, cartunista, escritor, e jornalista, Henriquinho, filho da inspiradora D. Maria mos deixou traços inconfundíveis.

Em todas as suas atividades, lá estava à bandeira da democracia brasileira. Escrevia cartas para o povo brasileiro, driblando a ditadura com a imagem e características de sua mãe doce e compreensiva. Sofreu com AI 5, seu irmão Betinho foi exilado; no livro Diretas já ele ataca diretamente os grupos oligárquicos do Brasil, que atuavam no centro da política.

O silêncio da Graúna apresentava o grito daqueles que queriam eleger o seu presidente. Sutil e sensível tocava os seus iguais:

"Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto.”

“Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês”

Mesmo hemofílico, mesmo sabendo que a sua vida poderia ser mais curta que a luta, ele lutava todos os dias, com lápis e papel, com esperança e medo, com silêncio ou paranóia.

Somos tudo que lemos, que vimos, ouvimos; todos os nossos sentidos, todas as relações que já tivemos; todos os projetos que já nos engajamos, todos os protestos que já fomos; todos os atos que não fomos.

A nossa consciência e inconsciência ganha forma para quem esteja interessado em coletivizar e disponibilizar, sem medo do julgamento, da critica e autocrítica. Por isso não só a primeira postagem do blog é uma homenagem a Henfil, mas sim a própria iniciativa de divulgar as nossas em um blog, sem ter como objetivo apenas o contador de visitas.


Cartas da Mãe - Publicada na revista "Isto é", em 1978.

Mãe,



Fiquei muito alegre quando os dubladores entraram em greve. Hah, sim, lembrei. Isso não é do tempo da senhora. Dubladores são aqueles que fazem a voz no lugar dos outros. Por exemplo, a voz da Kelly, uma das panteras, quem faz é a Neuza Amaral. A da Farrah, é a Marilisi….

A greve é justa, questão trabalhista. Ponto final.

Eu estou satisfeito é porque, depois do advento dos dubladores, nunca mais ouvimos a voz real do Kojak. Ficou chatíssimo ver filme de TV. Tanto faz ser John Wayne, Woody Allen ou Baretta. A voz é sempre a mesma do mesmo dublador. E a aflição que dá ver o Marlon Brando movendo os lábios assim, e a voz saindo assado?

Talvez o desespero que toma conta da gente, quando vê um filme dublado, seja apenas identificação. Nossa situação é a mesma, mãe! Nunca notou que a minha voz, a voz da senhora, do Carlito, da Regina, do Alfredo, da Jane, da Nelma, do Humberto, do Ivan, a voz de 110 milhões de brasileiros é feita pelo mesmo dublador?

Eu quero ouvir a minha voz!

Um beijo do seu filho,



Henfil

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Imagens de São Paulo

Existe vida calma no estado de São Paulo e água limpa no Rio Tietê. 

À beira do Rio Tietê em Ubarana - SP